Solitário-de-rodrigues

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Leguat1891solitaire.jpg
Estado de conservação
Extinta
Extinta  (1760) (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Reino:Animalia
Filo:Chordata
Classe:Aves
Ordem:Columbiformes
Família:Columbidae
Subfamília:Raphinae
Género:Pezophaps
Strickland, 1848
Espécie:P. solitaria
Nome binomial
Pezophaps solitaria
Gmelin, 1789

O solitário-de-rodrigues (Pezophaps solitaria, antigamente Didus solitarius) foi um membro não-voador da família das pombas, endêmico na Ilha Rodrigues (Maurícia). Era um parente distante do dodô.

A primeira observação da ave foi feita por François Leguat, chefe de um grupo de huguenotes franceses que colonizaram a ilha, entre 1691 a 1693. Descreveu o animal com detalhes, incluindo seu comportamento solitário de aninhamento. Os huguenotes apreciavam a ave por seu sabor, especialmente dos filhotes.

Em razão da caça e da introdução de predadores como o gato, as aves logo passaram a escassear e, quando, em 1755, Cossigny tentou obter um exemplar, não mais pôde encontrar. O solitário-de-rodrigues está extinto com certeza desde 1760.

Foram coletados grande número de ossos dessa ave, mas não há nenhum espécime montado. Os solitários se caracterizavam por uma grande e inusual protuberância do osso da base do polegar. No animal vivo, esta protuberância estaria coberta por uma grossa camada, parecendo ter uso defensivo (uma protuberância similar pode ser encontrada no ganso-do-canadá).

As observações feitas no solitário parecem indicar que era uma ave bastante territorial, e presume-se que as disputas com invasores eram feitas golpeando-se mutuamente com as asas.

Taxonomia

A primeira pessoa a chamar a ave de "solitário" foi o explorador francês François Leguat, em alusão aos hábitos solitários do animal. Acredita-se que ele pegou o nome emprestado de um relato de 1689 feito por Marquis Henri Duquesne, seu patrocinador, que mencionava o solitário-de-reunião.[2] A ave foi descrita cientificamente pela primeira vez em 1789 como se fosse uma espécie de dodô, sendo batizada de Didus solitarius, com base na descrição de Leguat, por Johann Friedrich Gmelin na décima terceira edição do Systema Naturae.[3]

Hugh Edwin Strickland e Alexander Melville sugeriram a ideia de um descendente comum do solitário-de-rodrigues e do dodô em 1848. Eles dissecaram o único espécime conhecido de dodô que ainda possuía tecidos moles, e o comparou com os poucos resquícios de solitários-de-rodrigues então disponíveis.[4] Strickland afirmou que, embora não fossem idênticas, estas aves compartilharam muitas características distintivas nos ossos da perna até então só conhecidas em pombos. O fato de que o solitário colocava apenas um ovo, se alimentava de frutas, era monogâmico e cuidava de seus filhotes também apoiou a ideia deste parentesco. O pesquisador reconheceu ainda sua distinção genérica e nomeou o novo gênero de Pezophaps, do grego antigo "pezos" (πεξος, "pedestre") e "phaps" (φάψ, "pombo").[5][6] As diferenças entre os sexos da ave eram tão grandes que Strickland pensou que o macho e a fêmea pertenciam a espécies diferentes, batizando a fêmea, menor, de Pezophaps minor.[7] Um estudo posterior sobre as características esqueléticas, realizado por Alfred e Edward Newton, indicou que o solitário era morfologicamente intermediário entre o dodô e os pombos comuns, mas diferente deles por sua protuberância carpal, única entre essas aves.[3]

O termo "solitário" também tem sido usado para outras espécies com hábitos solitários, como o íbis-de-reunião. Alguns cientistas acreditavam que a ilha da Reunião foi lar não apenas do "dodô branco", mas também de uma ave branca semelhante ao solitário-de-rodrigues. Hoje acredita-se que ambos são interpretações equivocadas de relatos antigos do íbis.[8] Uma descrição atípica do século XVII de um suposto dodô e de ossos encontrados na ilha Rodrigues, agora conhecido por ter pertencido ao solitário-de-rodrigues, levou Abraham Dee Bartlett a nomear uma nova espécie, Didus nazarenus; termo que atualmente é um sinônimo júnior do solitário-de-rodrigues.[9][10]

Evolução

Por muito tempo o dodô e o solitário-de-rodrigues foram catalogados numa família só deles, a Raphidae, pois o parentesco com outros pombos não estava suficientemente esclarecido. Depois cada um foi classificado em sua própria família monotípica (Raphidae e Pezophapidae, respectivamente), pois se pensava que haviam desenvolvido suas características similares de forma independente.[11] Recentemente, informações osteológicas e moleculares levaram à dissolução da família Raphidae, e tanto o dodô como o solitário-de-rodrigues estão hoje alocados numa única subfamília, Raphinae, dentro da família Columbidae, que inclui os pombos modernos.[12]

A comparação do citocromo b mitocondrial e das sequências 12S de RNAr, isolados de um tarso de dodô e de um fêmur de solitário-de-rodrigues, confirmou o parentesco próximo entre essas duas aves, bem como sua classificação dentro da família Columbidae.[13] A interpretação dessas evidências genéticas mostrou que o "primo" vivo mais próximo deles é o pombo-de-nicobar, que habita o sudeste asiático, seguido pelas gouras da Nova Guiné e pelo Didunculus strigirostris de Samoa.[14] O cladograma a seguir, formulado por Shapiro e colaboradores em 2002, mostra as relações do dodô com seus parentes dentro da família Columbidae, um clado contendo em sua maioria espécies terrestres endêmicas em ilhas.[13]

O pombo-de-nicobar é o "primo" vivo mais próximo do solitário.



Goura victoria






Caloenas nicobarica (pombo-de-nicobar)




Pezophaps solitaria (solitário-de-rodrigues)



Raphus cucullatus (dodô)








Didunculus strigirostris



Um cladograma similar, publicado em 2007, inverte os lugares da goura e do "Didunculus", além de incluir o Otidiphaps nobilis e o Trugon terrestris na base do clado.[15] Estudando as evidências comportamentais e morfológicas, Jolyon C. Parish propôs que o dodô e o solitário-de-rodrigues devem ser alocados na subfamília Gourinae junto com as pombas gouras e outras espécies, em acordo com os dados genéticos.[16] Em 2014, a análise do DNA do único exemplar que restou do Caloenas maculata mostrou que ele é um parente próximo do pombo-de-nicobar, e, sendo assim, também é "primo" do dodô e do solitário-de-rodrigues.[17]

Um estudo de 2002 indicou que os ancestrais do dodô e do solitário divergiram em torno do limite Paleogeno-Neogeno. As ilhas Mascarenhas (Maurício, Reunião e Rodrigues) são de origem vulcânica e têm menos de 10 milhões de anos de idade. Portanto, os antepassados de ambas as aves provavelmente permaneceram capazes de voar por um tempo considerável após a separação de suas linhagens.[18] O DNA obtido do espécime de Oxford está degradado, e nenhum material genético utilizável pôde ser extraído dos fósseis, então esses achados ainda precisam ser verificados de forma independente.[19] Os ancestrais dos raphines podem ter se espalhado a partir do sudeste asiático por passeios pelas ilhas. A falta de mamíferos herbívoros competindo pelos recursos dessas ilhas permitiu que o solitário e o dodô atingissem tamanhos muito grandes, fenômeno chamado gigantismo insular.[20] Outro pombo grande e incapaz de voar, o Natunaornis gigoura, foi descrito em 2001 a partir de material subfóssil de Fiji. Ele era apenas um pouco menor do que o dodô e o solitário, e também acredita-se que pode ter parentesco com os pombos coroados.[21]

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