Lagoa Santa (Minas Gerais)

Município de Lagoa Santa
Vista aérea de Lagoa Santa, destacando a lagoa e centro da cidade

Vista aérea de Lagoa Santa, destacando a lagoa e centro da cidade
Bandeira de Lagoa Santa
Brasão de Lagoa Santa
BandeiraBrasão
Hino
Aniversário17 de dezembro
Fundação17 de dezembro de 1738 (279 anos)
Gentílicolagoa-santense
Prefeito(a)Rogério César de Matos Avelar[1] (PPS)
Localização
Localização de Lagoa Santa
Localização de Lagoa Santa em Minas Gerais
Lagoa Santa está localizado em: Brasil
Lagoa Santa
Localização de Lagoa Santa no Brasil
19° 37' 37" S 43° 53' 24" O19° 37' 37" S 43° 53' 24" O
Unidade federativaMinas Gerais
MesorregiãoMetropolitana de Belo Horizonte IBGE/2008 [2]
MicrorregiãoBelo Horizonte IBGE/2008 [2]
Região metropolitanaBelo Horizonte
Municípios limítrofesJaboticatubas, Pedro Leopoldo, Confins, Vespasiano e Santa Luzia
Distância até a capital35 km
Características geográficas
Área231,994 km² [3]
População61 752 hab. Estimativa IBGE/2017[4]
Densidade266,18 hab./km²
Altitude759 m
Climatropical de altitude Cwa
Fuso horárioUTC−3
Indicadores
IDH-M0,783 elevado PNUD/2000 [5]
PIBR$ 627 410,973 mil IBGE/2015[6]
PIB per capitaR$ 27 871,73 IBGE/2015[6]

Lagoa Santa é um município brasileiro do estado de Minas Gerais, localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Lagoa Santa encontra-se a 800 metros de altitude, possui 231,9 km² de área e uma população de 61 752 habitantes em julho de 2017.[4] Está localizado a 35 km de Belo Horizonte.

Lagoa Santa se situa em uma região de relevo cárstico, apresentando notório patrimônio natural, espeleológico, paleontológico, arqueológico, histórico e cultural. A cidade conta com diversas descobertas e pesquisas científicas empreendidas na região desde o séc. XIX, tendo o dinamarquês Dr. Lund como pioneiro nesses estudos[7]. Em Lagoa Santa Lund encontrou restos esqueletais de humanos e da antiga fauna pleistocênica[8]. Na década de 1970 pesquisas arqueológicas na região foram responsáveis pela descoberta de "Luzia", o crânio humano mais antigo encontrado na América, datado em aproximadamente em 11.500 anos. Desde o Séc. XIX diversos trabalhos foram realizados em Lagoa Santa, contribuindo para diversos ramos do conhecimento, com estudos de relevância nas áreas de espeleologia, arqueologia, botânica, ecologia, geografia, geologia, antropologia e etc.

História

Bandeira de Fernão Dias

Bandeirante Fernão Dias Paes Lemes

A colonização recente da região de Lagoa Santa se dá ao final do século XVII, associada a chegada da bandeira de Fernão Dias Paes Leme que subiu o Rio das Velhas em busca de metais e pedras preciosas[9].  A Bandeira de Fernão Dias Paes Leme, partiu em julho de 1674 de São Paulo se instalando na região hoje conhecida por Sumidouro, onde chegaram por volta de 1675, desbravando durante 7 anos a região da cabeceira do Rio das Velhas, com rumo ao norte[10]. Essa bandeira protagonizou eventos dramáticos como a execução de José Dias, levado à forca por ordem do pai, Fernão Dias, pela acusação de conspiração, e o assassinato do fidalgo Dom Rodrigo Castel Blanco, elevado pelo a “administrador geral das minas que se encontrassem descobertas e por se descobrir”[11]. Castel Blanco entrou em confronto com Manuel da Borba Gato que com a morte de Fernão Dias seu sogro, se viu detentor de seus poderes e não estava disposto a se subjugar ao mesmo, visto por ele como um usurpador das conquistas obtidas pela bandeira de Fernão Dias[11].

Origem da Cidade de Lagoa Santa

A ocupação da região de Lagoa Santa próxima a Lagoa Central se dá por volta de 1733, quando Felipe Rodrigues se estabelece em seu entorno, erguendo ali um pequeno engenho para produção de aguardente[12]. Foi Felipe Rodrigues o primeiro a citar os poderes curativos da água da Lagoa, relatando ao Frei Antonio de Miranda, de Sabará[13], que ao lavar os eczemas de sua perna, sentiu-se aliviado de suas dores e obteve a cicatrização de suas feridas. Até 1749 não se tem notícias de povoamento ostensivo, o que se altera a partir dessa data com relatos das mais diversas curas operadas pelas águas da Lagoa, registrados por João Cardoso de Miranda, em seu opúsculo “Prodigiosa Lagoa Descuberta nas Congonhas das Minas do Sabará, que tem curado várias pessoas dos achaques que nessa relação se expõe”,  de 1749[13].

A fama das curas operadas pelas águas da Lagoa Santa, cruzou o oceano atlântico chegando a capital portuguesa, Lisboa, onde sua comercialização em barris chegou a ocorrer, sendo posteriormente contestada pelo rei, em vista dos prejuízos decorrentes da disputa comercial com as águas de Caldas.[14]

A partir de 1749 com a chegada à Lagoa Central de novos habitantes atraídos pela esperança da cura, surgiu à necessidade de se erguer uma capela dedicada a Nossa Senhora da Saúde, cuja a provisão foi obtida em 2 de maio de 1749. Em torno de 1750 é chamado para vir à região o ouvidor de Sabará, Manuel Nunes Velho, responsável por demarcar o local para erguimento da capela, e a disposição do arruamento e dos locais para banho, designando para tal Faustino Pereira da Silva como executor de suas decisões.[15] Desde então a cidade de Lagoa Santa se desenvolve em torno da Lagoa e de seus mitos. A perenidade da lagoa é atestada pelos relatos dos naturalistas viajantes, desde o século XVII. Sua profundidade não ultrapassa três metros, sendo que, a aproximadamente 40 metros de sua base, encontra-se um aquífero que contribui para a sua existência. E também, em grande parte, alimentada por águas pluviais. Seu formato é triangular e, no período das cheias, seu vertedouro lança suas águas no Rio das Velhas através do Córrego do Bebedouro.

Igreja Nossa Senhora da Saúde.

A  freguesia de Nossa Senhora da Saúde de Lagoa Santa foi criada somente em 1823 separando-se então da Freguesia de Santo Antônio da Roça Grande. A construção da igreja matriz de Nossa Senhora da Saúde se dá em 1819, sendo que a criação do distrito se dá em 1891, inicialmente ligado ao município de Sabará e que posteriormente, a partir da Lei Estadual n.843 de 1923 passaria a subordinar-se a Santa Luzia do Rio das Velhas, atual Santa Luzia. A elevação de Lagoa Santa à categoria de cidade se dá através Decreto-Lei n.148, de 17 de dezembro de 1938, considerando apenas o distrito da cidade, sendo que através da Lei n.1039, de 12 de dezembro de 1953, incorporavam-se ao município os distritos de Lapinha e Confins. Em 1995 através da Lei estadual nº 12030, se desmembra do município o distrito de Confins, que se eleva a categoria de município. Segundo divisão territorial datada em 1995 o município se constitui em dois distritos: Lagoa Santa e Lapinha, tendo posteriormente a criação do distrito de Lagoinha de Fora pela lei nº 1334. [16]

Revolução de 1842

Em meados de região de Lagoa Santa foi palco de combates da Revolução Liberal de 1842. Nos dias de 4 e 5 de Agosto de 1842, no arraial de Lagoa Santa, a força insurgente liberal, resistiu tenazmente ao ataque dos legalistas que, apesar da vantagem numérica e de equipamentos, viram seu comandante Coronel Pacheco ser ferido ao início da batalha[17]. Registros ainda revelam o movimento na cidade de Lagoa Santa “(...) a população apoiava abertamente os rebeldes, ajudando a distribuição de munição, durante as pelejas (...)"[18]. Após o ocorrido, em 6 de Agosto, o destacamento que tinha resistido tão bravamente no Arraial de Lagoa Santa se viu obrigado a se dispersar, em função da falta de provisões e reforços[17]. Posteriormente, em 20 de agosto, após a derrota dos liberais na batalha de Santa Luzia, parte das tropas insurgentes se retiram tomando o caminho de Lagoa Santa, o que mostra o engajamento da população na causa liberal. As batalhas na região do município ocorreram nas proximidades da Lagoa Central, na então Mata da Jangada (atual Horto).[17]

Peter Wilhelm Lund

Peter Wilhelm Lund

Nascido em Copenhague, Lund chegou ao Brasil pela primeira vez em 1825, em busca de ares mais puros para sua saúde debilitada. Durante sua primeira estadia, que durou até 1829, ele se dedicou ao ofício de naturalista nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, coletando e estudando espécimes de formiga, moluscos e urubus (Piló e Neves, 2002). Após passar quatro anos na Europa, mostrando aos seus pares o resultado de suas pesquisas nos trópicos, Lund retornou ao Brasil. Entretanto, na segunda visita, ele não se alojou no litoral, mas sim no interior do Estado de Minas Gerais, na região de Lagoa Santa. As riquezas geológicas, paleontológicas e arqueológicas fascinaram-no de tal forma que se estabeleceu definitivamente na região, onde viria a morrer em 1880 (Hurt e Blasi, 1969; Piló e Auler, 2002; Luna, 2007)[19].

Fotografia da residência de Dr. Lund em Lagoa Santa/MG

Entre 1835 e 1843, o naturalista dinamarquês e seu assistente e ilustrador, P. Andreas Brandt, visitaram mais de 800 cavernas, identificando material paleontológico em pelo menos 70 delas, em seis das quais também encontraram remanescentes esqueletais humanos. A partir desses achados foram identificados mais de 100 gêneros e 149 espécies de animais, sendo 19 gêneros e 32 espécies extintas (Cartelle, 1994). Entretanto, entre as inúmeras lapas, grutas e cavernas por eles exploradas, nenhuma foi tão importante como a gruta localizada na base do maciço da Lagoa do Sumidouro. Na maior parte do tempo, essa gruta fica alagada, tornando impossível qualquer tipo de exploração do seu interior. Ainda assim, durante eventos de seca intensa que ocorrem a cada 30 anos, o nível freático fica tão baixo que é possível entrar nela. Em 1842 e 1843, durante um desses grandes períodos de seca, Lund e Brandt escavaram os depósitos subterrâneos da gruta do Sumidouro, que já desconfiavam serem muito antigos (Neves et al., 2007a). Neles, Lund e Brandt encontraram ossos humanos de muitos indivíduos, associados a ossos de animais extintos, convencendo-os da antiguidade temporal do homem americano.[20]

Foi nessa mistura de espécies extintas e ainda vivas que apareceram os restos enigmáticos do cavalo e do homem, todos no mesmo estado de decomposição, de modo a não deixar nenhuma dúvida sobre a coexistência desses seres cujos restos foram enterrados juntos.[21] Portanto, mais de três décadas antes que a comunidade norte-americana sequer começasse a cogitar a existência do Homem Glacial americano, e mais de meio século antes que as primeiras evidências nesse sentido fossem geradas, Peter Wilhelm Lund já estava convencido de que os primeiros americanos eram tão antigos que haviam convivido com os grandes animais extintos (Neves et al., 2007b).[22]

Peter Wilhelm Lund tinha como ilustrador oficial o norueguês Peter Andreas Brandt. Brandt nasceu em Trondheim. Chegou ao Brasil em 1835 onde assumiu o posto de ilustrador e assistente para o trabalho de Lund. Ele foi o primeiro a retratar a cidade de Lagoa Santa. Suas pinturas, desenhos e gravuras revelam um talento extraordinário e o colocam entre os melhores ilustradores de seu tempo. Ele ilustrou, redigiu e encadernou as teses de Peter W. Lund, além de organizar e catalogar o material encontrado por eles nos sítios arqueológicos no entorno da cidade. Peter Andreas Brandt fundou a primeira revista ilustrada na Noruega. Era professor de desenho e tem obras inéditas pintadas na região de Ringerike, obras estas que se encontram no Riksarkviet em Oslo. Ele nunca voltou a Noruega. Morreu em Lagoa Santa em 1864 deixando uma obra pequena mas de grande importância artística e científica para a cidade, bem como para a Dinarmarca e a Noruega.[23]

En otros idiomas