Guerra da Orelha de Jenkins

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Guerra da orelha de Jenkins
Parte das Guerra de Sucessão Austríaca
Guerra de la oreja de Jenkins.png
Mapa das operações inglesas no Mar do Caribe, durante a Guerra da orelha de Jenkins.
Data 17391748
Local Principalmente no Mar do Caribe, Flórida e Geórgia
Desfecho Vitória espanhola Status quo ante bellum
Combatentes
Union flag 1606 (Kings Colors).svg Reino da Grã-Bretanha Bandera de España 1701-1760.svg Reino da Espanha
Pavillon royal de France.svg Reino da França
Principais líderes
Edward Vernon
James E. Oglethorpe
George Anson
Charles Knowles
Blas de Lezo
Manuel de Montiano
Andrés Reggio

A chamada Guerra da orelha de Jenkins ou Guerra do Asiento foi um conflito bélico que durou de 1739 a 1748, em que se enfrentaram as frotas e tropas coloniais da Grã-Bretanha e Espanha (com auxílio da França, enviando uma frota de guerra) destacadas na área do Caribe.

A partir de 1742, a contenda se transformou em um episódio da Guerra da Sucessão Austríaca, cujo teatro americano finalizaria com a derrota inglesa e o retorno ao statu quo anterior à guerra. A ação mais significativa da guerra foi o cerco de Cartagena das Índias de 1741, em que foi derrotada uma frota britânica de 186 navios e quase 27 000 homens pelas mãos de uma guarnição espanhola composta por 3 500 homens e 6 navios de linha. A história não voltaria a ver uma batalha anfíbia de tal magnitude até o Desembarque da Normandia, mais de dois séculos depois.

O curioso nome com o qual é conhecido, na historiografia inglesa, este episódio deve-se ao aprisionamento por um buque espanhol de um navio contrabandista inglês, capitaneado pelo inglês Robert Jenkins, em 1731. Segundo o testemunho de Jenkins, que compareceu na Câmara dos Comuns em 1738, como parte de uma campanha belicista por parte da oposição parlamentar contra o primeiro-ministro Walpole, o capitão espanhol, Julio León Fandiño, que aprisionou a nave, cortou uma orelha de Jenkins ao tempo em que dizia-lhe (segundo o testemunho do inglês) «Vê e diga a teu rei que o mesmo farei-lhe se ao mesmo se atreve». Em sua audiência, Jenkins denunciou o caso com a orelha na mão, e Walpole se viu obrigado com relutância a declarar guerra contra a Espanha em 23 de outubro de 1739.

Causas

A conclusão da Guerra de Sucessão Espanhola, com o tratado de Utrecht não havia suposto unicamente o desmembramento do patrimônio da monarquia hispânica na Europa. Inglaterra, já Grã-Bretanha, à parte de ter evitado a criação de uma potência hegemônica no continente europeu (com a combinação das monarquias bourbônicas de França e Espanha, junto com as possessões da última no continente), conseguiu amplas concessões comerciais no império espanhol na América. Assim, à parte da possessão de Gibraltar e Minorca (territórios reclamados pela Espanha durante todo o século XVIII), a Grã-Bretanha obteve o denominado « direito de assento» (possibilidade de vender escravos negros na América hispana) durante trinta anos e a concessão do « navio permitido» (que permitia o comércio direto da Grã-Bretanha com a América espanhola pelo volume de mercadorias que pudesse transportar um barco), rompendo assim o monopólio para o comércio com a América espanhola, restringido pela Coroa a comerciantes provenientes da Espanha metropolitana. Ambos os acordos comerciais estavam aos auspícios da Companhia dos Mares do Sul.

Entretanto, o comércio direto da Grã-Bretanha com a América espanhola seria uma fonte constante de problemas entre ambas as monarquias. Além desse, existiam outros motivos de conflito: problemas fronteiriços na América do Norte entre Flórida (espanhola) e Georgia (britânica), queixas espanholas pelo estabelecimento ilegal de cortadores de madeira britânicos nas costas do Caribe, reclamação constante de retrocessão de Gibraltar e Minorca por parte da Espanha, o desejo britânico de dominar os mares, mais difícil ante a recuperação da marinha espanhola e a rivalidade conseguinte entre Grã-Bretanha e Espanha, algo que já tinha ocasionado uma curta guerra entre ambos os países em 1719 na que chegou a dar-se um falido intento espanhol de invadir a Inglaterra.

Entretanto, era no terreno comercial onde se produziria um incessante crescimento da tensão. A Espanha mantinha o monopólio comercial com suas colônias na América, com a única exceção das concessões feitas à Grã-Bretanha, relativas ao navio permitido e o comércio de escravos.

Sob as condições do Tratado de Sevilha (1729), os britânicos acordaram não comercializar com as colônias da América espanhola (exceto o navio permitido), para o qual acordaram permitir, a fim de verificar o tratado, que navios espanhóis interceptaram os navios britânicos em águas espanholas para verificar sua carga, o que era conhecido como «direito de visita».

Todavia, as dificuldades de abastecimento da América espanhola propiciaram o surgimento de um intenso comércio de contrabando nas mãos de holandeses e, fundamentalmente, britânicos. Ante tais feitos, a vigilância espanhola se incrementou, ao tempo que se fortificavam os portos e melhorava o sistema de comboios que servia de proteção à valiosa frota do tesouro que chegava da América. De acordo com o «direito de visita», os navios espanhóis poderiam interceptar qualquer barco britânico e confiscar suas mercadorias, já que, a exceção do navio permitido, todas as mercadorias com destino à América espanhola eram, por definição, contrabando. Dessa forma, não só navios reais, mas também outros navios espanhóis em mãos privadas, com concessão da coroa e conhecidos como guarda costas, podiam abordar os navios britânicos e confiscar suas mercadorias. Tais atividades eram qualificadas de pirataria pelo governo de Londres.

Robert Walpole, Primeiro-ministro britânico no momento de declarar a guerra.

Além do contrabando, havia ainda barcos britânicos dedicados à pirataria. Boa parte do continuo assédio da Frota das Índias recaía sobre a tradicional ação de corsários ingleses no Mar do Caribe, que remontava aos tempos de Francis Drake. As cifras de barcos capturados por ambos bandos diferem enormemente e são portanto muito difíceis de determinar: até setembro de 1741 os ingleses falam de 231 buques espanhóis capturados frente a 331 barcos britânicos abordados pelos espanhóis; segundo esses, as cifras respectivas seriam de só 25 frente a 186. Em qualquer caso, é de se notar que para então as abordagens espanholas com êxito seguiam sendo mais frequentes que os britânicos.

Entre 1727 e 1732, transcorreu um período especialmente tenso nas relações bilaterais, ao que seguiu um período de distensão entre 1732 e 1737, graças aos esforços em tal sentido do primeiro-ministro britânico — whig—, sir Robert Walpole e do Ministério da Marinha espanhol, ao que se uniu a colaboração entre ambos países na Guerra da Sucessão da Polônia. Não obstante, os problemas seguiram sem resolver-se, com o conseguinte incremento da irritação na opinião pública britânica (na primeira metade do século XVIII começa a se consolidar o sistema parlamentarista britânico, com a aparição dos primeiros jornais periódicos). A oposição a Walpole (não só tories, mas também um número significativo de whigs descontentes) aproveitou este feito para acossar a Walpole (conhecedor do balanço de forças e, por conseguinte, contrário à guerra contra a Espanha), começando uma campanha a favor da guerra. Nesse contexto se produziu a audiência de Robert Jenkins na Câmara dos Comuns em 1738, um contrabandista britânico cujo barco, o Rebecca, tinha sido apresado em abril de 1731 por um guarda-costas espanhol, confiscando-lhe a carga. Segundo o testemunho de Jenkins, o capitão espanhol, Julio León Fandiño, que apresou a nave, cortou-lhe uma orelha ao tempo que lhe dizia: «Ve y dile a tu rey que lo mismo le haré si a lo mismo se atreve». Em sua audiência ante a câmara, Jenkins apoiou seu testemunho mostrando a orelha amputada.

A oposição parlamentar e posteriormente a opinião pública transformaram os incidentes em uma ofensa à honra nacional e claro casus belli. Incapaz de fazer frente à pressão generalizada, Walpole cedeu, aprovando o envio de tropas à América e de uma esquadra a Gibraltar com o comando do almirante Haddock, o que causou uma reação imediata por parte espanhola. Walpole tratou, então, de chegar a um entendimento com a Espanha no último momento, algo que foi conseguido momentaneamente com a assinatura do Tratado de El Pardo (14 de janeiro de 1739), pelo que ambas as nações se comprometiam a evitar a guerra e a pagar-se compensações mútuas, além de ficar acordado um novo tratado futuro que ajudasse a resolver outras diferenças acerca dos limites territoriais na América e os direitos comerciais de ambos.

Entretanto, o tratado foi rechaçado pouco depois, no parlamento britânico, contando também com a decidida oposição da Companhia dos Mares do Sul. Estando assim as coisas, o rei Felipe V exigiu o pagamento das compensações acordadas por parte britânica antes de a Espanha o fazer.

Nos dois países as posições endureceram, incrementando os preparativos para a guerra. Finalmente, Walpole cedeu às pressões parlamentares e das ruas, aprovando o início da guerra. Ao mesmo tempo, o embaixador britânico na Espanha solicitou a anulação do «direito de visita». Longe de ceder às pressões britânicas, Felipe V suprimiu o «direito de assento» e o «navio permitido», e reteve todos os barcos britânicos que se encontravam em portos espanhóis, tanto na metrópole como nas colônias americanas. Ante tais fatos, o governo britânico retirou seu embaixador de Madri (14 de agosto) e declarou formalmente a guerra à Espanha (19 de outubro de 1739).

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