Etruscos

Personagens etruscos em pinturas da Tumba Boccanera na Necrópole da Banditaccia, c. 550-560 a.C.

Os etruscos foram um povo que viveu na Etrúria, na península Itálica, ao sul do rio Arno e ao norte do Tibre, mais ou menos na área equivalente à atual Toscana, com partes do Lácio, Campânia e Úmbria. Eram chamados pelos gregos de tyrsenoi (tυρσηνοί) ou tyrrhenoi (tυρρηνοί), e tusci, ou depois etrusci, pelos romanos; eles auto-denominavam-se rasena ou rašna.

Desconhece-se ao certo quando os precursores dos etruscos se instalaram aí. Durante toda a Idade do Bronze os povos que habitavam a península produziram uma cultura material muito homogênea, não há indícios arqueológicos mostrando invasões estrangeiras em larga escala, e esses povos, portanto, deviam habitar esta região há um longo tempo. A partir de c. 1 200-1 100 a.C. começam a aparecer diferenciações regionais na cultura material. Nos tempos antigos, o historiador Heródoto acreditava que os etruscos eram originários da Ásia Menor, mas outros escritores posteriores consideram-nos itálicos. Hoje considera-se um desenvolvimento inicial principalmente autóctone com alguma pequena contribuição oriental. Sua língua, contudo, é isolada, e utilizava um alfabeto semelhante ao grego, possivelmente absorvido através do comércio com os fenícios.

A cultura Villanova, a primeira sociedade a dominar o ferro na Itália, é tida como a primeira fase evolutiva da cultura etrusca. Em sua fase mais típica, a partir do século VIII a.C., a Etrúria se organizou como um grupo de cidades-Estado muito civilizadas e governadas por uma aristocracia, compondo a primeira sociedade eminentemente urbana da Itália e, junto com os gregos, uma das primeiras sociedades urbanas da Europa. Seu território se ampliou de maneira a cobrir grande parte da península Itálica. Habitando uma região muito fértil, tinham uma sólida produção agropecuária, em parte exportada; mantinham oficinas e manufaturas de uma variedade de ferramentas, armas e itens utilitários, artísticos e decorativos que foram muito procurados no exterior; exploravam ricas minas de ferro, prata e cobre; a pirataria se tornou para eles uma prática regular e estenderam em torno de todo o Mediterrâneo uma ativa rede de comércio de exportação e importação, atividades que lhes davam grandes rendas e permitiram um brilhante florescimento militar, social, cultural e artístico. Foram hábeis em variadas técnicas de arte, manufatura, artesanato, ourivesaria e metalurgia, deixando grande produção, encontrada principalmente em enterramentos, seguindo uma estética que se modificou ao longo do tempo sob o influxo de variadas influências externas, devendo muito ao contato com os gregos e povos do Oriente. Em seu apogeu, entre os séculos VII e V a.C., foram uma das maiores potências mediterrâneas. Exerceram grande influência sobre os romanos e deram os últimos três reis de Roma. Seu território foi progressivamente absorvido pelos celtas, gregos, samnitas e principalmente os romanos a partir do século V a.C., e sua cultura se extinguiu no século I a.C.

O conhecimento de sua história, seu sistema de governo, seus hábitos, tradições, crenças e valores ainda tem lacunas profundas e muitas incertezas. Não sobreviveram muitos documentos escritos, os que restam são todos curtos e pouco informativos, e sua língua ainda não foi decifrada totalmente. Muito do pouco que se sabe sobre os etruscos vem de relatos greco-romanos nem sempre confiáveis e da análise dos registros arqueológicos e artísticos, que muitas vezes não permitem estabelecer mais do que suposições. Durante muito tempo considerada uma cultura dependente da grega, mostrando muitos pontos de contato com ela, hoje, embora não se negue a influência, cresce a percepção da originalidade dos etruscos em inúmeros aspectos.

História

Ver artigo principal: História etrusca

Origens

Território da civilização etrusca

A região onde prosperaram, entre o Arno e o Tibre se chama Toscana por causa do nome que tinham em latim, tusci. O mar que banha a costa da região se chama Tirreno, termo derivado de tirrenoi, como os gregos denominaram os etruscos. A origem dos etruscos permanece uma incógnita, embora existam várias teorias a respeito. Duas delas são as que têm maior peso, ambas concebidas na Antiguidade e populares até hoje. Outra teoria, já descartada, foi a de uma origem "nórdica", defendida em finais do século XIX e primeira metade do século XX. Era baseada somente na similitude da sua autodenominação (rasena) com a denominação que os romanos deram a certos povos celtas que habitavam a Norte dos Alpes, no atual Leste da Suíça e Oeste da Áustria: os récios (em latim: ræthii).[1]

Das teorias da Antiguidade, a teoria orientalista, proposta por Heródoto, postula que os etruscos vieram da Lídia, (na atual região da Anatólia, Turquia) por volta do século XIII a.C.. Para demonstrá-lo, os seus defensores baseiam-se nas supostas características orientais da sua religião e costumes, bem como que se tratava de uma civilização muito original e evoluída comparada com os seus vizinhos. Segundo Heródoto, depois de um período de dificuldades e grande fome (vinte anos), um rei confiou ao filho, Tirseno, a missão de levar o seu povo para uma terra produtiva. Estes lídios conseguiram chegar à Itália e foram denominados de tirrenos. Já o historiador Helânico disse que esses lídios eram na verdade os misteriosos pelasgos, povo que teria colonizado também as ilhas gregas de Lemnos e Imbros.[1] Por volta do século VII a.C. existiam doze cidades-estado independentes que se atribuíam a Tarcão, filho ou irmão de Tirreno. Poetas latinos, principalmente Virgílio, designam frequentemente os etruscos pelo nome de lydi.[2]

O argumento orientalista continua a ser defendido por alguns estudiosos baseando-se principalmente na autoridade das fontes antigas, mas sabe-se hoje que elas muitas vezes não foram fiéis à realidade. Porém, o gado que ainda vive na antiga Etrúria tem afinidade genética com o gado do Oriente Próximo,[3] e estudos genéticos indicaram afinidades dos etruscos com populações contemporâneas da Turquia e do norte da África.[4] A teoria da autoctonia foi proposta por Dionísio de Halicarnasso, considerando os etruscos nativos da própria península Itálica. Segundo o cronista, os próprios etruscos se consideravam autóctones. Dionísio escrevera com conhecimento de primeira mão, tendo consultado anciãos etruscos ainda vivos em seu tempo, mas isso por si apenas não garantiria sua veracidade histórica. A pesquisa recente se inclina a favor de um desenvolvimento autóctone, aceitando a chegada de pelo menos alguns grupos orientais da Anatólia antes do estabelecimento da cultura Villanova em torno de 1 100 a.C., considerada como a fase inicial da cultura etrusca. No registro arqueológico não há qualquer ruptura significativa no fio condutor da cultura presente desde o final da Idade do Bronze nesta região (segunda metade do segundo milênio a.C.), como seria esperado de uma migração externa importante. Se ela ocorreu, deve ter sido de pequenos grupos, que teriam exercido uma influência cultural pouco expressiva. Os esqueletos etruscos não mostram diferença em relação aos esqueletos dos habitantes anteriores desta região e também não há indícios de que a civilização etrusca tenha se desenvolvido em outros lugares antes de chegar na Etrúria.[1][4][5] Os ancestrais orientais dos etruscos devem ter chegado à região em torno de 3 000 a.C.[6] O principal obstáculo contra a teoria da autoctonia é a língua etrusca, que não se relaciona com nenhuma outra língua da região nem parece possuir origem no tronco indo-europeu, comum às outras línguas europeias.[4]

Evolução

Urna funerária do Período Villanova
Ânfora do Período Orientalizante
Cratera do Período Clássico-Helenístico

A cronologia da civilização etrusca ainda é polêmica e sabe-se de fato muito pouco sobre sua história, já que não sobrevivem documentos suficientes e nem se decifrou toda a sua língua.[1] Para a maioria dos autores a cultura etrusca dá os primeiros sinais de emergência com a chamada cultura Villanova, surgida entre c. 1 200 e 900 a.C. (datação controversa), a primeira cultura que dominou o ferro na região central da Itália. Esta datação concorda com os próprios etruscos, que alegavam ter nascido entre os séculos XI e X a.C. É muito significativo que não há uma solução de continuidade observável na cultura material desta região entre a Idade do Bronze e o início do período etrusco, e todas as principais cidades etruscas já eram habitadas no período Villanova. A cultura Villanova foi basicamente agrária, organizada em pequenas aldeias com cabanas, espalhadas de maneira mais ou menos uniforme pelo território, com cultura material avançada, economia baseada na cooperação, governo coletivo e pouca estratificação social. Eram também guerreiros e mineiros e há sinais de terem mantido uma apreciável rede de comércio. Deixaram espólios em tumbas contendo vasos, armas, ex-votos, joias e outros objetos, com uma decoração simples baseada em motivos geométricos e grafismos. Também eram capazes de criar pequenas e esquemáticas formas animais e humanas.[1][5][7][8] Entre os séculos IX e VIII a.C. as aldeias começam a se aglutinar no topo de amplos platôs, ao que parece com propósitos defensivos, estabelecendo laços de interesses comuns. Possivelmente eram cercadas de paliçadas. Desta maneira vão sendo formadas as primeiras cidades, onde a estrutura social se modifica e surge uma elite embrionária que tende a concentrar renda e poder e é enterrada com artefatos simbólicos de status.[1][9]

No século VIII a.C., quando inicia o Período Orientalizante, a cultura Villanova dá lugar à etrusca propriamente dita. Os primeiros contatos comerciais importantes acontecem com os fenícios. Os etruscos apreciavam muito itens de luxo fenícios, como vasos de prata, bronze, vidro e faiança, objetos de marfim, perfumes, cosméticos e outros, encontrados em várias tumbas da nova elite. Uma importante tecnologia no trabalho com a cerâmica, o bronze, o cobre e o ferro já havia sido desenvolvida autoctonamente ao longo da cultura Villanova, e estimulados pelo novo mercado interno de bens de consumo, começaram a diversificar suas próprias oficinas e manufaturas, vindo a se tornar habilidosos em muitos outros domínios. A produção nativa rapidamente ampliou seu vulto, estabelecendo uma das bases para o rápido crescimento econômico que se verificou a seguir e para a formação de uma vasta rede de comércio internacional. Em contrapartida, os fenícios levavam produtos etruscos como grãos, vasos, joalheria, madeira, couro e metais e os espalhavam pela Grécia, Chipre, norte da África e o Oriente Próximo. Produtos etruscos foram encontrados na Gália, na Escandinávia e ao norte dos Alpes. Através dos fenícios os egípcios também deixaram sinais, especialmente na possível introdução de alguns deuses em seu panteão e em alguns motivos gráficos.[10][11]

A partir de c. 750 a.C. penetra destacada influência da cultura grega através do comércio de mercadorias com a Eubeia, as Cíclades, a Magna Grécia e depois a Grécia continental, influenciando também seus costumes, seus esportes, sua arte, suas formas de lazer e sua religião. Os gregos parecem ter estado primariamente interessados nos metais etruscos, mas importariam também muitos artefatos e produtos agrícolas.[1][7] Ao mesmo tempo chegavam outras influências do oriente, visíveis no amor ao luxo e à encenação pública do status, no uso de certos padrões ornamentais e técnicas artísticas, no desenvolvimento de novas tipologias arquiteturais, especialmente as fúnebres e sacras, e na forte ritualização das relações sociais e do culto religioso. A região enriquecia e prosperava, emergindo enfim uma cultura urbana bem caracterizada, conduzida por uma aristocracia sofisticada e poderosa, apreciadora de banquetes, arte, joias e roupas finas.[7][12][13]

Embora seja largamente reconhecida a influência de culturas estrangeiras na transição da cultura Villanova para a cultura Orientalizante, essa influência às vezes é superestimada e parece claro que os elementos externos foram selecionados e re-significados segundo a visão e os interesses etruscos, e continua o debate sobre se tal evolução interna, verdadeira revolução, foi principalmente uma causa ou uma consequência do contato com o exterior.[4][9][14] De fato, alguns desenvolvimentos expressos plenamente no Período Orientalizante parecem ter iniciado já na Idade do Ferro.[15]

Sua riqueza derivou principalmente da agropecuária, da mineração de ferro e prata, do comércio e da pirataria. No século VIII a.C. a servidão e escravidão já estavam arraigadas nos costumes; a sociedade estava fortemente militarizada, havia em vigor um sistema legal complexo e uma consolidada hierarquia de poder e prestígio, e a religião estava bem organizada. Pouco depois as cidades começavam a ser ampliadas com palacetes, templos e imponentes muralhas de pedra.[1]

Antefixo em forma de cabeça de Górgona, 525-500 a.C., Período Arcaico
Cabeça de Apolo, parte do grupo do frontão do Templo de Luni, cerâmica, c. 175-150 a.C., Período Helenístico

As rivalidades entre as famílias poderosas já levavam o território a uma certa fragmentação, formando-se várias cidades-Estado independentes governadas por monarquias, que parecem ter-se mantido em frequente conflito mas eram unidas por interesses gerais comuns e por um sistema de federação. As cidades floresceram com maior ímpeto na parte sul do território e um tanto afastadas do litoral. A primeira parece ter sido Care, seguida por Veios, Tarquinia e Vulci. Ruselas, Verulônia e Populônia, mais ao norte, puderam crescer graças à proximidade com ricas minas. Outros centros importantes foram Pontecagnano, Orvieto, Clúsio, Volterra e Perúgia, que tiveram um desenvolvimento mais lento e mais apegado a tradições Villanova.[1]

A rápida evolução da sociedade depois do período Villanova foi impulsionada também por uma revolução tecnológica, com a introdução de novas técnicas artesanais, armamentos e ferramentas, estimulada pelo continuado contato com cidades avançadas de uma grande área em torno do Mediterrâneo. No fim do século VIII a.C. é introduzida a escrita e no século VII a.C. os vasos gregos começam a inundar as cidades etruscas, atestando o grande interesse que lhes despertava a cultura estrangeira. A esta altura a cultura aristocrática inicia sua fase de apogeu, que vai perdurar até o século V a.C. A riqueza propiciou o florescimento da cultura e das artes e as manufaturas se expandiram para alcançar níveis industriais.[1][7][10]

Difundiram seus domínios submetendo os povos vizinhos, ocupando vastas áreas na Lombardia e do Vêneto e fundaram cidades que existem até hoje. Em direção ao sul, tomaram Roma, então um aglomerado de aldeias, e transformaram-na em uma cidade cercada de muros. Acredita-se que os Tarquínios, uma dinastia de reis etruscos, governaram Roma por volta de 616 a.C. a 509 a.C.. Durante o processo de expansão, os etruscos atingiram até a região da Campânia, onde fundaram Cápua que, desde o início do século VI a.C., representou um centro comercial capaz de rivalizar com as colônias gregas vizinhas: Cumas e Neápolis (Nápoles). Por volta de 540 a.C., aliados aos cartagineses, derrotam os fócios da Córsega. Essa vitória assegurou-lhes o controle da ilha e marcou o apogeu da expansão territorial.[10][16] O processo de expansão territorial e o enriquecimento provocaram uma inflação populacional e uma reorganização demográfica. As capitais regionais, sedes das cidades-Estado, cresciam e começavam a formar subúrbios semi-rurais que se estendiam até 5 km em torno dos centros urbanos. No fim do século VI a.C. toda a Etrúria estava densamente povoada e intensamente explorada, transformando-se profundamente a paisagem natural.[17]

Os etruscos foram expulsos de Roma pelos latinos em 509 a.C., iniciando sua decadência. Tiveram sua frota destruída pelos gregos de Siracusa em 474 a.C. e com isso sua rede de comércio foi em boa parte desmantelada; em 424 a.C. perderam a Campânia para os samnitas e, logo a seguir, o vale do rio Pó foi ocupado pelos celtas.[1][12] Em 396 a.C. Veios foi tomada, e no século seguinte os romanos incorporaram ao seu território o que restava da Etrúria. As guerras consomem muitos recursos, reduzem a população e desestruturam a economia. O declínio do seu poderio é acompanhado pela progressiva dissolução da sua própria cultura e sociedade, um processo que ocorreu de maneiras e ritmos diferentes para cada cidade. No geral, aparecem cada vez mais tumbas com decoração pobre, as cidades param de crescer, o sistema de governo consolidado pela aristocracia entra em colapso, cai a qualidade da escultura, da arquitetura e da pintura. No final muitas cidades já aderiam voluntariamente à dominação de Roma, que se afirmava como a nova potência regional, e as que resistiam em geral acabavam arrasadas. Sua cultura daria importante contribuição à formação da cultura romana, encerrando sua trajetória no século I a.C., quando toda a península itálica está romanizada.[1][15]

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