Crónica de el-rei D. Pedro I

Crónica de el-rei D. Pedro I
Primeira página das Crónicas de D. Pedro I, D. Fernando e D. João I, manuscrito de c. 1525-1575.
Autor(es)Fernão Lopes
Idiomaportuguês arcaico
PaísPortugal Portugal
GéneroCrónica

A Crónica de el-rei D. Pedro I, ou Crónica de D. Pedro, é um registo histórico do género crónica escrito por Fernão Lopes abarcando o período de tempo correspondente ao reinado de D. Pedro I de Portugal, de cognome o Justiceiro, ou o Cruel, que decorreu entre 1357 e 1367.

A Crónica de D. Pedro I está dividida em quarenta e quatro capítulos sendo iniciada por um Prólogo. Dos inúmeros temas tratados ao longo da Crónica destacam-se a Justiça a que dedicou o Prólogo e seis capítulos,[1] a organização do Estado e as decisões do rei,[1] Inês de Castro a que dedicou seis capítulos, relatando em especial a declaração de D. Pedro sobre o seu casamento com Inês, a perseguição aos seus assassinos e a descrição da trasladação dos restos mortais de Inês de Coimbra para Alcobaça,[2] um capítulo dedicado a D. João I, filho bastardo de D. Pedro e futuro rei,[3] e ainda o Reino de Castela ao qual dedica dezasseis dos capítulos, tratando-se neste caso de decisões ou empreendimentos do rei D. Pedro I de Castela, sobrinho do homónimo rei português, e para cuja história Fernão Lopes deve ter tido acesso às Crónicas sobre a mesma época do cronista castelhano Pedro López de Ayala.[4]

Fernão Lopes, que começou por ter a profissão de tabelião, foi em 1418 nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, ou seja, de chefe dos arquivos do Estado, lugar de confiança da corte, e que lhe permitiu o acesso a importante documentação para a elaboração das suas Crónicas.[5] Fernão Lopes inicia provavelmente a escrita da Crónica de D. Pedro em 1434 pois foi neste ano que o rei D. Duarte lhe atribui pelo seu futuro trabalho a tença anual de catorze mil reais.[1]

É a primeira das três grandes crónicas do percursor da história portuguesa, e também a primeira crónica régia com características próximas das que definiram o género cultivado no século XV e nos dois seguintes, sendo as outras duas crónicas da autoria de Fernão Lopes a Crónica de D. Fernando e a Crónica de D. João I.[3]

"E diziam as gentes que tais dez anos nunca houvera em Portugal como estes que reinara el-Rei D. Pedro."
 
Final da Crónica de D. Pedro[6].

Resumo

Estátua jacente de D. Pedro no seu túmulo, no Mosteiro de Alcobaça
Ver artigo principal: Crónica de D. Pedro I (Índice)

Dos temas tratados por Fernão Lopes ao longo desta Crónica destacam-se a Justiça, a que dedicou o Prólogo e seis capítulos,[1] a organização do Estado e as decisões do rei,[1] Inês de Castro, a quem dedicou seis capítulos, relatando em especial a declaração pública de D. Pedro sobre o seu casamento com Inês, a perseguição aos assassinos dela e a trasladação dos seus restos mortais de Coimbra para Alcobaça,[2] D. João I, pai de D. Duarte que havia incumbido Fernão Lopes da elaboração da Crónica e a quem decerto muito agradaria o panegírico do seu pai, a quem dedicou o capítulo 43,[3] e ainda o Reino de Castela, ao qual dedicou dezasseis capítulos, tratando-se neste caso de decisões ou empreendimentos do rei D. Pedro I de Castela, sobrinho de D. Pedro I de Portugal, e para cuja história Fernão Lopes deve ter tido acesso às Crónicas sobre a mesma época do cronista castelhano Pedro López de Ayala.[4]

Justiça

Fernão Lopes quis dar de D. Pedro a imagem de um rei preocupado com a Justiça, razão porque recebeu o cognome de Justiceiro, ou também de Cruel, neste caso também pelo tipo de castigos sentenciados, pelo que se pode ler no Prólogo e em seis dos quarenta e quatro capítulos da Crónica em que descreve casos específicos de aplicação da justiça.[6]

Acerca da importância da Justiça no governo do reino, escreve Fernão Lopes no Prólogo:

Justiça é uma virtude que é chamada toda virtude, assim que qualquer que é justo, este cumpre toda a virtude, porque a justiça, assim como a lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão e, isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança. E assim podeis entender dos outros vícios e virtudes. Esta virtude é mui necessária ao rei e isso mesmo aos seus súbditos, porque havendo no rei virtude de justiça fará leis por que todos vivam direitamente e em paz. E os seus sujeitos, sendo justos, cumprirão as leis que ele puser e, cumprindo-as não farão cousa injusta contra ninguém, e tal virtude como esta pode cada um ganhar por obra de bom entendimento".[6]


Sobre a noção da Justiça enquanto "virtude que é toda a virtude" é de admitir que Fernão Lopes conhecesse os textos de Aristóteles, pois este, na Ética a Nicómaco, cita um provérbio grego com uma ideia muito próxima da referida por Fernão Lopes: "A justiça contém todas as outras virtudes".[1]

Nos cinco capítulos que tratam de casos específicos de justiça, capítulos 6 a 10, um descreve o roubo e assassínio de um judeu (cap. 6), sendo os restantes quatro casos de adultério. Em dois dos cinco casos referidos, o caso de um bispo (alto clero, cap. 7) e outro do almirante do reino (alta nobreza, cap. 10), os castigos decididos numa primeira fase pelo rei acabaram por não ser aplicados face aos pedidos de clemência por pessoas influentes.[6]

O Estado

Para Fernão Lopes, o Estado foi estabelecido pelos homens para realizar o bem público. Não foi estabelecido para realizar na terra qualquer ordem divina, nem para ser o braço secular da Igreja, como defendia o agostiniano Lutero, aproximando-se a sua conceção de Estado da doutrina muito posterior de contrato social.[1]

Inês de Castro

Estátua jacente do túmulo de D. Inês de Castro no mosteiro de Alcobaça (c. 1360).

Outro dos temas que a Crónica destaca é o conjunto de acontecimentos relacionados com Inês de Castro. São os capítulos 27 a 31 e o capítulo final 44. Quando D. Pedro sobe ao trono Inês de Castro já tinha sido assassinada, e a Crónica relata primeiro nos cap. 27 a 29 como D. Pedro declarou oficialmente que a tinha desposado de forma incógnita, havendo testemunhas, de modo a que pudesse ser reconhecida como rainha.[7]

Depois, nos capítulos 29 a 31, é relatado como D. Pedro acorda com o seu homónimo de Castela a troca de fugitivos de ambos os reinos, entre os quais do lado português os três assassinos de Inês de Castro. Destes três, dois são deportados para Portugal e são supliciados, e um, Diogo Lopes Pacheco, consegue fugir para França.[8]

Finalmente, no capítulo 44, é relatado como D. Pedro mandou trasladar, em cerimónia com pompa, os restos mortais de Inês de Castro para o Mosteiro de Alcobaça e como havia mandado fazer dois túmulos em mármore e ricamente decorados com as estátuas jacentes de cada um, sendo um para Inês de Castro e o outro para no futuro ser depositado o seu próprio corpo, como veio a acontecer.[9]

A literatura medieval está cheia de grandes casais amorosos. Os amores de Amadis de Gaula e Oriana são provavelmente os mais convencionais, inspirados nos de Lançarote e da rainha Ginebra, os quais têm talvez o seu antecedente nos de Tristão e Isolda, cuja paixão mútua se tornou conhecida como o arquétipo do amor romântico, próprio do Ocidente.[2]

Mas Fernão Lopes, referindo ainda os amores da "rainha Dido" (imortalizados por Virgílio na Eneida e conhecidos através de adaptações medievais, como o Roman d´Eneas, uma das fontes da Primeira Crónica Geral de Afonso X[2]) e de "Adriana" (Ariadne), popularizados por Ovídio, e comentando que são «amores compostos, os quais alguns autores abastados de eloquência e florescentes em bem ditar ordenaram segundo lhes aprouve», expõe o acontecido entre D. Pedro e Inês de Castro e diz que os amores destes não são fingidos, e «que se contam e lêem nas estórias que seu fundamento teem sobre verdade», ou seja, nas narrativas de casos acontecidos, como eram (ou se supunham ser) as crónicas.[9]

O cronista narra assim como decorreu a trasladação dos restos mortais de Inês de Castro:

D. João I

Retrato de D. João I, obra de autor desconhecido do século XV, no Museu Nacional de Arte Antiga.

O facto de D. Pedro ser o pai de D. João I, cuja memória D. Duarte recomendara especialmente a Fernão Lopes que celebrasse, quando o incumbiu de escrever as histórias de todos os reis, contribuiu para o cuidado com que o cronista tratou a figura deste futuro monarca e procurou aclarar aspetos históricos da sua vida que tanta influência teve na história posterior. O relevo dado ao sonho em que D. Pedro vê o futuro Mestre de Avis salvando simbolicamente Portugal (cap. 43) deve ter essa explicação.[3]

Neste aspeto, o do enaltecimento de um personagem através de um sonho premonitório, a Crónica de D. Pedro assemelha-se à Crónica de D. João I. Enquanto nesta última Crónica (cap. 33) é Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem do Hospital, na dúvida de saber qual dos seus filhos, Pedro Álvares ou Nuno Álvares, viria a ser o protagonista de uma profecia de um futuro de grandes batalhas e vitórias, na Crónica de D. Pedro (cap. 43) é o próprio rei D. Pedro I sobre o seu filho João, confirmando a escolha para Mestre da Ordem de Avis, no famoso sonho em "que eu via todo Portugal arder em fogo, de modo que todo o reino parecia uma fogueira; e estando assim espantado vendo tal cousa, vinha este meu filho João com uma vara na mão, e com ela apagava aquele fogo todo", preconizando um futuro reinado de justiça, tal como fora o do próprio D. Pedro.[10]

D. João I aparece no título do capítulo 43 enquanto D. Fernando, também filho e sucessor imediato de D. Pedro, não teve direito a figurar com tal destaque, embora seja referido ao longo da Crónica, em especial quando se negociava o seu casamento com a princesa D. Beatriz de Castela que acabou por não se concretizar.[6]

Reino de Castela

Em dezasseis dos quarenta e quatro capítulos desta Crónica, ou seja, nos capítulos 13, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 26, 32, 33, 34, 35, 36 e 40, Fernão Lopes narra acontecimentos pertencentes exclusivamente à história do Reino de Castela, ou das relações ou guerra deste reino com outros reinos que não o de Portugal, tratando-se na maior parte dos casos de decisões ou empreendimentos do rei D. Pedro I de Castela. Não obstante este rei de Castela ser sobrinho de D. Pedro I de Portugal parece exagerado o espaço dado a este tema, mas que se compreenderá pelo acesso que Fernão Lopes teve às Crónicas sobre a mesma época do castelhano Pedro López de Ayala e do uso que delas fez nos seus textos.[4]